segunda-feira, 15 de outubro de 2012

OBRIGADO, PROFESSORA ANGÉLICA PAIVA!

Foi aqui, no Seminário São Pio X, em Santarém, que conheci uma das mulheres mais importantes da minha vida: professora Angélica Paiva

Hoje, Dia do Professor, acordei cedo lembrando de uma das mulheres que marcaram minha vida para sempre: Angélica Paiva, minha professora de Português, Francês, Geografia e Redação, no período de 1973-1976, no Seminário São Pio X, em Santarém.

É dela uma das frases que repeti muito aos meus filhos: "Mocinhos, quem não lê não escreve", que ela afirmava, algumas vezes um tanto aborrecida diante de uma pronúncia incorreta ou de uma dicção imperfeita, ao nos incentivar ao hábito da boa leitura - uma história que ainda lembro aos mais jovens, um hábito que adotei e carrego até hoje.

Angélica nos obrigava - uma obrigação sofrida, no início, mas depois muito prazerosa - a ler um livro por mês, com apresentação de ficha de leitura, além de outras leituras menores semanais (um conto, uma fábula do Esopo, um texto do Tesouro da Juventude, etc), com fichas semelhantes.

Outras vezes, simplesmente nos entregava uma folha em branco e um lápis para que nela déssemos grafia a todos os sons que encontrássemos, da água que corria no igarapé a um caminhão que passava pela estrada da Rodagem (hoje, rodovia Santarém-Cuiabá), da serra de fita que cortava a madeira que alimentava nosso fogão a lenha ao chilrar dos passarinhos nos bosques que rodeavam o majestoso prédio do Seminário São Pio X, das galinhas do nosso pequeno aviário aos gritos dos moleques que se banhavam no igarapé Irurá, ... Foram meus primeiros contatos com a onomatopeia, a grafia dos sons naturais.

Uma vez por semana, havia a Rádio Comunitária (já não lembro se esse era o nome exato), com radialista/animador, repórter e as atrações do dia, como uma piada bem engraçada, a declamação de uma poesia, a leitura de um texto e, ... de repente, o repórter pedia entrada ao vivo para relatar a emoção que era aproximação de um avião da Varig, vindo da direção da serra Piroca, rumo ao Aeroporto de Santarém, ...

Noutras vezes, era ela que nos dirigia em peças de teatro apresentadas em ocasiões festivas e especiais, como o aniversário do próprio seminário, o dia de São Francisco de Assis, a Semana Santa, ... Lembro de três principais de que participei: José e seus Irmãos (eu fui Judá, o quarto dos filhos do velho de Jacó), Davi e Jônatas e Castelo Assombrado. Sempre muito rigorosa, ela exigia perfeição de todos, interpretação perfeita, sem que nunca tivéssemos uma aulinha de teoria. Mas não existia momentos melhores do que aquelas noites de aprestação das peças, com a presença de nossos familiares, dos padres, às vezes do próprio dom Tiago Ryan, além de membros da comunidade do bairro da Esperança. Eram noites de gala, de orgulho, de felicidade plena, especialmente após os demorados aplausos.

E as músicas francesas que ela nos deixava ouvir aos sábados de manhã? Ah, ... como era lindas! Foi lá que criei gosto pelas canções interpretadas por Charles Aznavour, Edith Piaf, Christophe, Maurice Chavalier, Adamo, Gilbert, Richard Anthony, Paul Mouriat, entre outros. Angélica tinha uma coleção das Músicas Inesquecíveis, todas imperdíveis, realmente memoráveis!

Foram quatro anos de rica e agradabilíssima convivência com aquela mulher. Angélica Paiva foi responsável pela formação dos cidadãos que nos tornamos. Océlio de Jesus (juiz trabalhista), Antônio João Campos (advogado), Dornélio Silva (marketeiro), os padres Francisco Paixão e Edilson Rocha, entre outros, e também eu, tivemos esse privilégio. Há 22 anos no exercício do Jornalismo, profissão que adotei depois de abandonar a ideia de ser padre, lembro sempre de Angélica Paiva, especialmente nas muitas horas de redação ou diante de uma dúvida momentânea sobre a correta aplicação de uma regra gramatical.

Angélica não foi apenas professora, ela foi muito mais: orientadora, formadora, conselheira, amiga, mãe, ... Quantas vezes ajudou a administrar conflitos que tínhamos com frei João ou frei Mauro! Angélica nos ensinou princípios morais e éticos fundamentais à nossa formação, hoje, infelizmente,  tão carentes em muitas pessoas que assumem cargos na política ou no governo e que os transformaram em meio sujo e desonesto para se apropriar de bens do Erário.

Pesquisas recentes comprovam que crianças que lêem e escrevem mais são melhores em leitura e na escrita. E escrevendo em blogs e outras mídias sociais, atualizações de status, mensagens de texto, mensagens instantâneas, e todas as coisas semelhantes, sentem-se ainda mais motivadas a ler e escrever.

Angélica estava certa!

Obrigado, professora Angélica Paiva!

(Infelizmente, não tenho uma fotografia da minha professora predileta para aqui ilustrar essa postagem!)

2 comentários:

OcélioJC disse...

Piteira, amigo, associo-me à tua belíssima homenagem à professora Angélica Paiva, querida mestra de ontem, de hoje e de sempre.
Permita-me mais duas palavras, como gratidão aos ensinamentos daquela que também modificou a minha primeira infância roceira e abriu (ali no seminário São Pio Décimo) o portal do conhecimento para um futuro seguro, embora então incógnito, mas que seria mais facilmente decifrado com as letras de sua sabedoria.
Foi a professora Angélica Paiva quem nos ensinou de verdade os primeiros e difíceis caminhos da língua portuguesa e, com aquela maestria peculiar, alimentou em nossos corações adolescentes o gosto pela leitura (literária, especialmente), pela redação (criativa, notadamente) e pela arte cênica (como exercício dos sete sentidos).
Ela figura tranquilamente entre os maiores mestres – na perspectiva da completa sabedoria – que passaram pela minha vida acadêmica.
Sua marca indelével foi (perenemente) a arte de saber ensinar com dedicação, traço típico de quem faz as coisas com vocação.
Seus ensinamentos são tao caros e nobres à minha vida que, sem eles, outros caminhos teria trilhado, sem o denso conteúdo de suas aulas, pululantes de sabedoria.
Com gratidão, inesquecível mestra, receba meus parabéns pelo seu dia – o dia do professor. Océlio de Jesus C. Morais, um aprendiz do tempo.

José Maria Piteira disse...

Dornélio Silva, outro ex-aluno de Angélica Paiva, enviou o seguinte comentário sobre a postagem "Obrigado, Professora Angélica":

Boa lembrança, Piteira, ela é pra todos nós "que passamos por suas mãos", uma referência de educadora, que norteou nossas vidas no lidar com a nossa língua portuguesa, com a língua francesa.
Poucas dificuldades tive nessa empreitada quando segui meus estudos, no colégio Dom Amando, na UFPA. Ela foi a base de nossa educação.
Só temos a agradecer: Obrigado profa. Angélica!!